Entre Rômulo e Remo: O Nascimento do Mercado e a Crise do Trabalho
- André G. Figur
- 3 de jul. de 2025
- 5 min de leitura
Atualizado: 13 de set. de 2025
O empreendedor é o profissional mais necessário do mundo.
Não é o médico, nem o professor, nem o engenheiro.
Muito menos o programador.
E antes que alguém se ofenda — sim, todas essas profissões são essenciais. Mas há uma diferença entre o que é essencial dentro de uma estrutura… e o que é essencial para que essa estrutura exista.
Todas essas funções orbitam em torno de um universo que só existe porque alguém, um dia, criou o que ainda não havia.
O mercado.
E o mercado não é uma entidade mística, nem um lugar abstrato. Ele é uma força da natureza humana, tão inevitável quanto a fome, o desejo ou a morte.
Ali onde houver dois seres humanos trocando qualquer coisa — tempo, esforço, comida, abrigo, palavra — ali já nasceu o mercado.
Ali nasceram seus dois pais: oferta e demanda, irmãos gêmeos como Rômulo e Remo, fundadores de um império maior que Roma.
E o que é o empreendedor senão aquele que enxerga, antes de todo mundo, onde esses dois irmãos estão brigando — e oferece paz em forma de produto, serviço ou solução?
É esse o arquétipo do empreendedor. Não o homem da planilha, nem o garoto da lancha.
É o fundador de cidades invisíveis, o forjador de estruturas onde não havia nada — e onde hoje há salário, plano de saúde, vale-refeição, e até festa de fim de ano.
O que poucos percebem é que o ambiente onde as pessoas encontram emprego, estabilidade e rotina… foi criado por alguém que não tinha nada disso.
Um dia, esse empreendedor esteve pelado no mundo:Sem estrutura.Sem segurança.Sem manual.
Mas ele viu uma dor. Uma falha. Uma necessidade.
E disse: eu posso resolver isso.
Foi assim que ele criou um sistema que organiza, produz e entrega valor ao mundo. E que, por entregar valor suficiente, passou a empregar outros — a dar a eles um salário, um título, um crachá e até um certo sentido de pertencimento.Não porque era obrigação.
Mas porque tinha demanda o bastante para que ele não desse conta sozinho.
Esse é o ponto.O empreendedor cria ambientes que sustentam vidas.E quanto mais vidas ele sustenta, mais valor ele está oferecendo — não só ao mercado, mas à humanidade.
A Crise Invisível
E, no entanto, vivemos uma crise. Uma crise silenciosa, inesperada, até absurda.
Falta mão de obra.
Em todos os setores que mais produzem.
Ao mesmo tempo… sobra gente desempregada.
Mas não é por falta de estudo.Essa é a geração mais especializada que o Brasil já produziu.
Jovens com PHD antes dos 30, com cursos internacionais, com diplomas em áreas que o mercado não pediu.
Eles estudaram tudo. Menos uma coisa: como servir alguém de forma prática e consistente.
Ou como identificar uma necessidade, atender essa necessidade, e organizar isso de forma sustentável.
Enquanto isso, empresas estão aumentando a contratação de analfabetos.
Por quê? Porque o analfabeto, com coragem, encara o serviço que aparece.
O pós-graduado, por outro lado, tem pré-requisitos:Home office.Ambiente agradável. Propósito.Salário compatível. Cargo compatível. E, se possível, que não exija esforço emocional.
O superespecializado tem razão?
Tem.
Ele correu atrás de um sonho, acreditou no estudo, se preparou.Mas… não tem quem o queira contratar nos termos dele.
E enquanto papai e mamãe bancarem o iFood e o aluguel, tudo bem.Mas e depois?
O Peso da Máquina
Outro grupo se esconde na informalidade.
Gente que, por medo de perder benefícios, prefere ganhar por fora.Fazem o famoso “bico”, cuidam da sobrevivência com o que conseguem, sem romper o frágil vínculo com o auxílio estatal.
Na lógica individual, faz sentido.
Na lógica coletiva, alguém paga essa conta.
Estima-se que no Brasil uma pessoa produtiva carrega o custo de outras quatro, apenas em tributos que sustentam o peso da máquina pública.
E mais: há ainda o veneno da relação patrão/empregado, contaminada por abusos dos dois lados.
Chefes que tratam seus contratados como lixo, cobrando deles o impossível.Funcionários que vivem de empresa em empresa, processando todas, como estilo de vida.
O mercado reagiu.
Como sempre, ele encontra soluções.
E uma delas foi a explosão do profissional PJ.
O autônomo.O “dono do seu próprio negócio”.
Parece bom.
E, em muitos casos, é.
Mas... nem todo mundo está pronto para ser o próprio chefe.Não por falta de capacidade técnica.
Mas por falta de uma coisa que ninguém ensina na faculdade:Domínio próprio.
A Verdade Sobre Prosperar
Ser seu próprio patrão exige mais do que coragem.
Exige ordem, disciplina, humildade, e um olhar clínico sobre o mundo real.
Porque empreender não é só ter uma ideia.
Não é “só se arriscar”.
Não é sair fazendo brigadeiro ou tentando ser influenciador porque alguém disse que dá dinheiro.
Empreender é uma ciência prática:
Identificar uma demanda.
Medir o tamanho da dor que ela causa.
Encontrar uma solução simples, eficaz e replicável.
Organizar essa entrega.
Precificar com inteligência.
E fazer isso várias vezes, por meses, anos, décadas.
O homem que prospera é o que serve, com constância, a muitos.
E que consegue transformar essa entrega em retorno previsível.
Não é talento.
Não é só sorte.
É um conjunto de virtudes: observação, persistência, coragem, domínio próprio — e a capacidade de adaptar o plano sem abandonar o propósito.
A Missão Acima do Lucro
Mas chega um momento em que é preciso dizer algo ainda mais sério:
Nem tudo pode — ou deve — ser feito com fins lucrativos.
Há coisas que a humanidade precisa que sejam feitas, apesar do custo.
Causas que valem o sacrifício.
Missões que exigem homens dispostos a morrer pobres — se for necessário — para que outros vivam com dignidade, beleza, verdade.
Nesses casos, o lucro não é o ponto de partida.
É a missão que vem primeiro.
Quem se entrega com verdade ao que o mundo precisa, geralmente descobre, no meio do caminho, formas legítimas de sustentar sua causa.
Não porque correu atrás do dinheiro.
Mas porque o mercado recompensa aquilo que entrega valor de verdade.
Foi assim com inventores, escritores, fundadores, reformadores.
Homens que não queriam enriquecer, mas resolver um problema humano.
E ao fazerem isso bem… criaram impérios que duram gerações.
O Brasil Precisa Saber Disso
O brasileiro precisa entender isso.
Precisa aprender que não é o diploma que sustenta a sociedade.
Nem o Estado.
Nem o sindicato.
É o homem que serve bem.
É o empreendedor que, mesmo sem garantias, cria ambientes onde outros podem viver.
Se queremos mudar esse país, não podemos depender apenas de eleições, cotas, concursos ou sorte.
Temos que ensinar nossas crianças — e lembrar nossos adultos — que:
O mercado não é o vilão.
O lucro não é pecado.
E o empreendedorismo não é um jogo de azar.
É a forma mais legítima de transformação social.
É a fé de que, se você resolver bem o problema de muita gente, será recompensado de forma justa.
E mais do que isso:É a convicção de que há algo mais importante que o sucesso.
A missão.
Missão essa que pode ser pequena, local, modesta.
Ou pode ser grande, estrutural, revolucionária.
Mas sempre será a mesma lógica:
Servir bem.Sustentar com coragem.E construir com propósito.
Esse é o caminho.Essa é a pedra angular.
Esse é o profissional mais necessário do mundo.
O empreendedor.







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